contra\força
2014
instalação
pilha de mesas e cadeiras escolares antigas, 34 depoimentos impressos em
MDF, 4 documentos impressos em papel vegetal, 2 fotografias impressas
sobre papel algodão e 40 fotografias impressas em papel offset.
dimensões variadas
1.
Cheguei em Belo Horizonte no dia 15 de julho. Embora eu tivesse morado
aqui durante mais ou menos 7 anos, dessa vez era diferente. O que me
atraiu de volta foi uma “escola sem muros”, projetada por Oscar Niemeyer
em 1956, o Colégio Estadual Central. Conheci a história desse
Colégio em uma matéria publicada na Revista Piseagrama. Fiquei
fascinada com a ideia de uma escola sem muros, guiada pela liberdade. Ao
mesmo tempo, pensava na impossibilidade de uma experiência como essa
hoje em dia. A partir disso, meu interesse com esse projeto foi usar a
história do Colégio como alegoria para investigar algumas questões
que considero atuais, como a ascensão do conservadorismo e os
resquícios do regime militar que operam na atual democracia no Brasil.
Estava interessada em tocar nesses pontos mais como uma estratégia de
provocação do que como uma tentativa de validar as minhas
suposições.
2.
Iniciei a pesquisa experimentando um método de trabalho que consistia
em pensar em um roteiro de perguntas, buscar por ex-alunos e ex-alunas
do Colégio Estadual Central e, depois, fazer uma espécie de entrevista
com essas pessoas. Para conseguir esses contatos, recorri a Aleluia
Heringer Lisboa Teixeira, professora e pesquisadora que escreveu sobre o
Colégio Estadual Central, foi ela também a autora da matéria na
Revista Piseagrama. Com muita generosidade, ela me passou diversos
telefones e e-mails de pessoas que poderiam colaborar com o meu processo
de trabalho. O meu interesse estava em um momento específico da
história, a década de 60. Queria encontrar pessoas que tiveram uma
relação com o Estadual nessa época, pensando em dois acontecimentos
principais: o golpe de 64 e o AI-5 em 68.
(Outra coisa que me interessava nesse processo, era tentar convencer
essas pessoas a irem a um encontro de turma de ex-alunos e alunas, e
nessa ocasião eu gravaria as conversas e posteriormente montaria um
vídeo que se chamaria “64 é hoje”. Não deu certo.)
Nesse início, fiz algumas visitas ao Colégio e a acervos públicos de
Belo Horizonte. O Colégio Estadual estava em obras e o objetivo era
voltar ao projeto original de Niemeyer. Provisoriamente, os alunos e
alunas tinham aulas em salas improvisadas, espalhadas por um edifício
comercial em Lourdes. Diante dessa configuração, a direção alegava
que era impossível acessar qualquer arquivo. Insisti e tentei negociar
com o diretor e com uma vice-diretora o meu acesso ao acervo, foi quando
começaram a surgir as justificativas burocráticas. Papéis,
autorizações, pedidos de doação, telefonemas. No meio de um
labirinto burocrático, fui obrigada a pensar em outros caminhos que
não passassem pelo acervo da escola. No meio da reforma, encontrei uma
enorme pilha de móveis escolares e pensei em pedi-las ao diretor da
Escola, já que elas pareciam abandonadas. Estavam expostas a chuva e ao
sol, apodrecendo. Mais uma vez tive como resposta muitas justificativas
burocráticas e as mesas e cadeiras continuaram apodrecendo. Comecei
então a tentar encontrar sucatas escolares em outros lugares. Nesse
momento, essa enorme estrutura totalmente desordenada de cadeiras e
mesas escolares, fazia muito sentido como uma concretização de parte
da minha pesquisa.
(Há no projeto de Niemeyer uma enorme parede de pedra no pátio do
Colégio Estadual. Com o passar dos anos, os alunos e alunas começaram a
assinar seus nomes na parede, formando uma textura composta de datas e
nomes de pessoas que passaram por ali.
Dentro do projeto de reforma do Colégio, está o apagamento, a
“limpeza” dessas inscrições, uma decisão da diretoria do Colégio. De
acordo com o diretor, as assinaturas são vandalismo.)
3.
Continuei as entrevistas. Conversei com 15 pessoas, dentre ex-alunos,
ex-alunas, pesquisadoras e professoras. Os relatos que eu ouvia eram de
histórias fortes de resistência à ditadura militar e de luta contra
as diversas formas de opressão. Encontrei ex-guerrilheiros, feministas,
ativistas da luta contra o racismo, da luta do povo palestino...
Além das entrevistas, comecei a buscar imagens do colégio em páginas
na internet e no Facebook. Encontrei o Ney, um ex-aluno que é um
fotógrafo amador. Vindo de uma família italiana que, segundo ele, foi
responsável pela primeira gráfica de Belo Horizonte, desde adolescente
usava as câmeras da família para registrar o cotidiano dos colegas e
das colegas de escola. As fotos do Ney foram as únicas fotografias de
acervo pessoal (da década de 60) que eu consegui durante a pesquisa.
Uma das pessoas com as quais conversei, o Marco Antônio Meyer, me
emprestou uma pasta com diversos documentos, eram inquéritos e
prontuários do DOPS, matérias de jornal, carteirinha escolar, dentre
outros documentos. Marco Antônio foi presidente do Diretório
Estudantil do Estadual Central em 68. Expulso e perseguido pelo regime
militar, foi para o Rio de Janeiro e entrou para o Colina (Comando de
Libertação Nacional). Em uma operação da guerrilha, foi preso e
torturado.
Foi uma das 40 pessoas presas pelo regime militar que foram trocadas
pela liberdade do embaixador alemão Ehrenfried von Holleben em 1970.
(O meu segundo encontro com o Marco Antônio Meyer foi marcado na praça
7, em um ato político contra o genocídio promovido por Israel contra o
povo palestino. Lá, Marco Antônio discursou sobre o financiamento de
Israel a algumas instituições de ensino públicas do Brasil. De lá
caminhamos até a Igreja São José carregando cruzes, que foram
colocadas na escadaria da Igreja.)
A partir desse momento da pesquisa, comecei a coletar imagens de hoje em
dia que pudessem se relacionar com essas histórias do passado. Tentei
durante todo o tempo criar uma espécie de diagrama que me
possibilitasse fazer essas conexões.
Como uma provocação, o meu diagrama trazia imagens de resistência à
ditadura civil militar ao lado de imagens da repressão policial nos
protestos pela redução da tarifa de ônibus, em junho de 2013. Em
contraposição a um documento do Colégio Estadual contra a expulsão
de Marco Antônio, trouxe para o diagrama um documento da PUC-Rio que
repudiava a prisão preventiva da professora Camila Jourdan (e mais 22
ativistas), em 2014, presa um dia antes da final da Copa do Mundo no Rio
de Janeiro.
4. Sem burocracia
Uma semana antes do fim do período da residência artística consegui
as cadeiras e mesas escolares antigas. Em uma operação
institucionalmente ilegal, uma outra escola pública me cedeu alguns
móveis que não poderiam ser reaproveitados.
Consegui então montar dentro do espaço do Centro de Arte
Contemporânea e Fotografia (em Belo Horizonte), aquela pilha de
cadeiras e mesas do início, que continuou fazendo sentido.
Ao final, o trabalho foi apresentado em um diagrama contendo trechos de
falas das entrevistas, imagens feitas por mim da reforma em curso no
Colégio, imagens de coleta e documentos.
Este projeto foi financiado pelo JA.CA - Jardim Canadá Centro de Arte e
FCS - Fundação Clóvis Salgado e foi desenvolvido de julho a setembro
de 2014, em Belo Horizonte.